Meme do Efraim – El retorno

Adoro Efraim Medina Reyes.
Em um livro (Era um vez o amor mas eu tive que matá-lo) seu tem um capítulo que explora a pergunta “por que se escreve?”
Publiquei aqui em janeiro um pequeno poema chamado “Meme do Efraim” onde faço a minha parte.
Não pretendo divulgar memes. Acho alguns até divertidos, mas vou investir minha energia em outra coisa.
Vou transcrever a resposta do Efraim

A gente se mete a escrever porque não foi capaz de bater num motorista que nos afrontou na rua, porque não quebrou pratos num restaurante, porque não enfrentou um policial louco que xingou a sua namorada, porque não disse à mãe o muito que a amava e detestava, porque não cuspiu num professor que dizia que a terra era redonda, porque deixou que pegasse seu lugar na fila de cinema, porque não tem ofício nem benefício, porque pensa que é uma forma fácil de fazer fama e dinheiro, porque se paspalhos como García Márquez e Mutis fazem isso, a gente também pode fazer, porque não é bom em matemática, porque não quer ser médico nem advogado, porque está irado, porque odeia as pessoase quer insultá-las.

A gente se mete a escrever porque uma garota linda lhedisse que gosta de escritores, porque precisa de um álibi para não trabalhar,porque isso o faz sentir-se superior, porque leu uns romances de caubóis e quer entrar na concorrência, porque é um caubói sem Oeste, porque escriturários como Vargas Llosa o fazem, porque não tem voz, porque não tem ritmo, porque está farto de bater punheta, porque quer trepar com uma mulher mas não sabe como, porque pensa que tem alguma coisa a dizer, porque descobre que as garotas bonitas dizem que os escritores são ternos mas saem com os mafiosos, porque não o deixam dar um amasso na ganhadora do concurso nacional de beleza, porque é magro e não em remédio. porque tem medo de ter morrido sem ter metido em uma garota linda, porque se um puxa-saco hipócrita como Vargas Llosa escreve qualquer um pode fazê-lo, porque sabe que o cinema é tempo perdido, porque tem inveja dos micos que aparecem na tela e ganham milhões, porque na falta de melhores opertunidades quer ser como Bukowski.

A gente se mete a escrever porque não sabelutar bose nem tem colhões para isso, porque tem os dentes tortos e não pode sorrir como gostaria, porque para os impotentes de todo tipo não há outro caminho, porque todos os feios escrevem ou assassinam e gente não é capaz de matar nem uma mosca, porque escrever dá importância, porque para chamarem alguém de escritor não é preciso escrever bem mas para chamarem de filho-da-puta não importa se a mãe é uma santa, porque tem medo de ficar a deriva sem fazer nada, porque não pode beber toda noite, porque ama a Deus mas odeia as sociedades sem fins lucrativos, porque não tem namorada, porque não há emoções mas insultos, porque na sua casa não tem televisão e o rádio quebrou, porque a mulher do vizinho é gostosa, porque tem medo de ficar careca e por isso evita os espelhos. A gente se meta a escrever porque não se atreve a assaltar um supermercado, porque ama uma mulher e ela é namorada do garoto esperto da rua, porque não há revistas pornográficas suficientes, porque quer fazer alguma coisa além de cagar e se masturbar, porque não é ogaroto esperto da rua nem o forte nem o engraçado, porque é o garoto nada, porque não vale um tostão furado, porque apanha lá fora, porque sua mãe grita o tempo todo, porque não há ilusões nem luz no fim do túnel, porque sua mente voa baixo e nunca será outro Cioran, porque não tem coragem de saltar, porque não quer a esposa feia que merece, porque tem medo de morrer sem ter comido um belo cuzinho, porque não tem pai, amigos nem fortuna, porque não tem o jeito de cuspir do Clint Eastwood, porque se paralisa entre uma e outra intenção, porque era uma vez o amor mas tive que matá-lo.

o bom é que escrever não serve para nada daquilo que a gente quer. Escrever é um limite, uma dor, um defeito a mais. O bom é que depois de escrever a gente se sente péssimo. Nada mudou, tudo continua no lugar (menos você, masdito cabelo), Pele não volta ao campo. O ruim é que você escreve e o Pambelé cai na lona espancado por um gringo, um maldito gringo que esteve preso por bater na mãe. O ruim é que Pambelé não é a mãe do gringo e — por mai que você escreva — continua caído. O bom é que você escreve e continua sonhando com a mulher do vizinho, sonha que a agarra pelas orelhas e crava-lhe a rola. O ruim é que escrever não cura seus desejos assassinos, que assaltar um supermercado continua sendo o seu objetivo impossível. O ruim é que ainda deseja um amor inesquecível. O bom é que escrever é uma outra forma de cagar e se masturbar. O ruim é que vocêlê os grandes autores, mas só Bukowski lhe diz alguma coisa. O ruim é que um dia a garota bonita toma conhecimento que você escreve e não deixa que lhe meta fundo, até o outro lado da morte. O ruim é que escrever serve para aquilo que você não quer.
— Oi mãe.
— HO, MEU DEUS, Rep: o seu sapato está SUJO DE MERDA.
— Não grite, vou limpar o chão.
— Saia daí, VOLTE POR ONDE VEIO.
— Tá bom, mamãe, mas não grite.
— NÃO ESTOU GRITANDO.

E com isso finda o texto do nosso amigo misógino e machista. Sei que pega mal esse texto tão perto do oito de março, mas gosto dele, apesar dele dizer nas entrelinhas que Freud é o único cara que já entendeu o homem e que ele quer mesmo é sexo.
mas esqueça os palavrões e esse texto fala sobres sonho, impotência, fuga, e motivação.
A arte pode ser a melhor forma de auto engano.
E os palavrões estão lá apenas para dizer que no fundo pode ser apenas uma fachada que você mantém para você e no fundo o que você quer é algo primitivo e violento.
Sem mais, tchau.

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