Hoje a noite começo bem, mas antes de acabar passei por uns episódios… “Interessantes”, antropológicamente interessantes.
Andando pela uma larga, bem iluminada, mas deserta.
À esquerda o muro de concreto com a mata ciliar d outro lado. À direita o morro quase um paredão com poucas casas.
À esquerda as instalações em ruínas de antigas indústrias cercadas pela vegetação e à direita o paredão se erguendo.
À frente o ponto onde os postes falham e o escuro tema conta desse ambiente.
Andando rapidamnte por causa do frio, sob o céus estrelado e sem lua um jovem homem caminha carregando uma sacola cruza esse caminho. Veste uma camisa pólo azul e calças sociais pretas.
No fim do caminho, o ponto mais perigoso da cidade. O ponto de ônibus na praça Candidés. Ao lado de um boca de crack.
Ele fica no ponto esperando pelo último ônibus que só iria passar onze e vinte. Ainda são quinze para às onze. Trinta e cinco minutos de convívio com o desesperados, desajustados e loucos.
A primera abordagem é de um senhora de seus cinqüenta anos (ou menos, dependendo de quão dura tenha sido a vida).
— Esperando alguém?
— Não. Só o ônibus.
— Té a fim de um programinha?
Quinta a noite. Faltando praticamente dois dias para o dia das mães. Penso em quantos filhos essa senhora não deve ter. Penso em minha namorada. Penso no absurdo da situação.
— Não, não…
— Dá pra me ajudar com um real?
— Claro…
Sim… apesar de termos idéias tão modernas ainda somos os mesmos que viviam nas cavernas. Somos sentimentais. Sabia que ela estava saindo da boca e iria tranformar esse um real me pedra, mas dei.
Segunda abordagem. Um cara por volta de seus trinta.
— Esperando o ônibus?
— É.
— E ainda tem?
— O último sai às dez e quarenta. Deve passar aqui onze e vinte.
— Ahh… Tá com frio?
— Muito.
— Quer me comprar esse casaco?
— Não obrigado.
— Pode me ajudar com cinqüenta centavos?
— Não vai dar. Só tenho a passagem.
— Sem problema.
Terceira Abordagem. Um homem de vinte e cinco ou trinta com os olhos arregalados, suando de camiseta na noite fria e tremendo um pouco.
— Sabia que está se ariscando em ficar aqui, né?
— É…
— Aqui é perigoso.
— É…
— Pode me fazer um favor?
— Se eu puder… (Foi só eu e a situação do momento ou isso tudo soou mesmo como uma ameaça?)
— Eu sou químico na Plasdil. Briguei com a mulher e saí sem nada. Tem uma passaginha pra me arrumar? (Plasdil = Plásticos Divinópolis Ltda. Passaginha = Vale transporte. Atualmente custa R$1,75)
— Sinto muito. Não tenho.
A bem da verdade tinha na carteira mais de cem reais por causa de uma conta que iria pagar no dia seguinte.
Ariscado?
Nem tanto. Tenho mais medo de cachorros que de pessoas. As pessoas pelo menos você pode usar um sorriso amigo ao cumprimentar e uma cara de infelicidade quando diz que não pode ajudar.
Os loucos, desesperados e desajustados são seres humanos como quaisquer outros. Pude aprender isso ao conviver com punks, metaleiros, góticos, satanistas e outras coisas mais estranhas.
No fundo é sempre gente. Gente que se você mostrar a sua infelicidade em não poder ajudar, mesmo que seja motivada por não poder desviciá-los e não por não poder lhes dar dinheiro, vão te tratar como gente.
Ao longo da história todos os massacres, genocídios e holocaustos só são possíveis porque se retira a humanidade do inimigo. É impossível matar um outro ser humano. Mas aqueles “japas nojentos”, aqueles “judeus de merda” ou aqueles “bárbaros selvagens” é muito simples.
E o que nós fazemos nos nossos carros com vidros fechados e ar condicionado além de retirar a humanidade dos que estão de fora?
O que eles fazem além de tirar a nossa humanidade?
Quantas vezes você já descobriu quem está por trás do ambulante que vende artesanato? O tratou como gente?
Espero que muitas. Não gostaria que isso fosse uma crônica arrogantemente escrita por um dono da verdade que retira a humanidade de seus leitores ao dizer “eu sou muito mais humanos que vocês, seus insensíveis”.
Espero que o medo do ser humano não seja motivo para nos afastarmos das pessoas cinzas normais.
Espero que o meu medo do medo que as pessoas têm não seja justificado, porque o mal nasce do medo da escuridão.
PS
Sim. eu gosto MUITO de Engenheiros do Hawaii.
12, Maio 2008 às 12:09 am
Mas engenheiros é mto bom! boa noite
13, Maio 2008 às 10:29 am
Também adoro engenheiros do hawaí! lindo texto… escrevi algo parecido outro dia no blog, eu tento ser humana e tratar outras pessoas como tais. me chateio com coisas que vejo e sofro por aí… mas não mudo
beijos