Terrorismo

— Bom dia Joshua. Sente-se. — A psicóloga do RH sorriu amável e profissionalmente.
— Sim. Meu dia será muito bom. — sorriu Joshua, inexplicavelmente.
— Espero que você não guarde rancor quanto às coisas que acontecem na vida da gente. Que saiba crescer com os reveses que acontecem na vida da gente.
— Não odeio você. Você sequer chega a merecer meu desprezo. — Joshua falou a meia voz com a cabeça baixa, apesar de continuar olhando a psicóloga nos olhos.
— Como? — Ela perguntou por não ter entendido bem a frase e muito menos ainda a atitude dele. Funcionários costumavam ser acanhados e humilhados ou atrevidos e agressivos ao serem chamados para essa sala para falar sobre sua conduta. Essa atitude era estranha.
— Só odeio pessoas. Seres que se definem pelas suas funções recebem apenas desprezo. Coisas vendidas como você sequer merecem desprezo.
— Se você odeia pessoas, de quem gosta?
— De seres humanos. Aqui na empresa tem alguns. Somos amigos. Tenho outros amigos em outras empresas. Na verdade já sei que você me chamou para entregar a minha carta de demissão.
— Entendo que é um momento difícil para você… — a psicóloga começou mas foi interrompida por Joshua.
— Não. É um momento difícil para você. Porque você não tem a menos idéia do que vai acontecer. Você agora está na lista de pessoas que vão ser ferradas. É você ao invés de enrabar agora vai ser enrabada.
— Você está me ameaçando? — A psicóloga estreitou os olhos. Não podia mostrar fraqueza.
— Se eu ameaçasse você. Por exemplo dissesse “vou te matar semana que vem”. Chega semana que vem. Se você morre eu vou preso. Se não morre fica tranqüila. Isso é idiotice. Não estou falando de ameaças. Estou falando de terrorismo.
— Terrorismo? — A psicóloga tentou associar o funcionário à árabes… difícil…
— Sim. A principal característica do terrorismo é que vocês não sabem o que vai acontecer, ou quando. muito menos quem vai fazer. O importante é o terror constante. A paranóia. O atentado é até dispensável, mas é claro que a gente comete, porque senão se torna uma ameaça vazia. Precisamos lembrar vocês sempre de que estamos aqui. Que nós, seres humanos que vocês coisas enrabam em nome de um patrão de quem lambem botas podemos revidar.
— Poderia moderar o vocabulário? — Isso era uma ameaça. Uma ameaça grave. Ele tinha que ser tratado com firmeza. Ela não poderia demonstrar medo.
— Os patrões nos fodem todo dia. Não é por desejo de lucro. É uma crueldade maior. Eles chegaram a inventar a faculdade de Administração para ensinar babacas vendidos como você a foder os funcionários como se não fossem funcionários. Essa crueldade vai até não apenas querer definir o que nós vamos fazer no serviço, mas querer definir qual a nossa atitude na vida. E a atitude que querem que tenhamos, e vocês vendidos tentam inocular na gente é a de que a coisa mais importante na nossa vida é o trabalho pelo qual nos pagam. É a empresa que não é nossa. É uma lavagem cerebral grotesca que vocês perpetuam.
— Você está sendo muito radical…
— Então nós nos revoltamos e fizemos a mesma coisa. E a atitude que nós queremos que vocês tenham é a Paranóia. O Terror. A Angústia. — Joshua se ergue da sua cadeira e gesticula quase eufórico. — Não existe nada que vocês possam fazer agora. Nenhuma política de redução de danos com funcionários vingativos vai funcionar. Eu quero ser despedido. Essa empresa não é a primeira. Não vai ser a última. Estou aqui apenas para libertar seres humanos e colocar vocês, coisas em seu devido lugar. Encolhidos! Com medo!
— Se controle! — A psicóloga bateu a mão espalmada na mesa. Precisava impor limites. Essa brincadeira tinha ido longe demais.
— Não! Eu vou te controlar. Pare para pensar em quantos amigos meus, amigos de amigos meus, estão aí fora. Estão prontos para te foder como você tem feito durante todos esses anos com os funcionários dessa empresa. Eu vou controlar a sua vida. Você vai colocar grades nas janelas da sua casa, cerca elétrica, vai blindar o carro. E seus pneus aparecerão cortados, suas janelas quebradas, seus gatos mortos, para te lembrar que estamos aqui. Que estamos observando. Que estamos punindo.
— Pare! — A psicóloga gritou com medo na voz.
— E um dia desses, alguém que você sequer conhece vai matar você. Porque nós, empegados, seres humanos, somos companheiros. E o que você fez a um fez a todos. Porque seres humanos não abandonam os seus em nome da fidelidade a um patrão que só quer nos foder, nos tirar a humanidade.
— Pare! — Mais alto. Não é possível que ninguém lá fora não esteja ouvindo isso? Por que não entram? Por que não a ajudam? Será que estavam todos do lado dele?
— Você vai sofrer, mas nem um décimo do que os seus chefes vão sofrer. Os patrões, os donos que não querem empregados, mas adoradores vão sofrer mil vezes mais que você que é só uma traidora. — Joshua estava com as mãos apoiadas na mesa, com o rosto perto do rosto da psicóloga. Com os olhos arregalados e um sorriso maníaco. A psicóloga estava encolhida. Tremendo. Assutada quase às lágrimas.
— Minha carta de demissão por favor. — Joshua empertiga-se e estende a mão com um sorriso amável.
A psicóloga entrega a carta com a mão trêmula.
— Até a próxima. — Joshua diz com um tom amável e um sorriso nos lábios, mas a perspectiva de rever esse homem fora da sala onde ela tinha poder, agora que ela entregou a carta que tirava dela todo poder que podia usar contra ele, a assustou até as lágrimas.

2 Respostas para “Terrorismo”

  1. Bárbara diz:

    psicólogos de RH são tão chatos…

  2. diz:

    Ainda existem seres humanos.

    Bjo


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