Estado laico?

Vamos tentar não ofender ninguém (É impossível, eu sei, mas vamos fingir que vamos tentar…) com mais uma crônica da série Óculos de Longo Alcance Para Vistas Sem Relance.

Hoje fui surpreendido por uma cena singular… Em uma creche uma professora cantando com seus alunos “Derrama ó senhor, derrama sobre nós o seu amor…”
O ensino não deveria ser laico? O estado não deveria ser laico? Sei que é só uma música inocente e que ela se enquadra como ecumênica porque serve para um monte de religiões. Sei que na creche não havia nenhum hinduísta ou budista para quem essa música seria desprovida de sentido. muito menos confucionistas ou xintoístas. (E considere que essas religiões que comunmente julgamos “menores” são professadas por metade da população enquanto cristianismo e islamismo a outra metade)
Sei de tudo isso. Mas ainda acho que o estado não deveria professar fé. Que a Assembléia Legislativa de Minas Gerais não deveria ter uma capela ao lado do plenário, que tribunal não deveria ter cruz, que as sessões da Câmara de vereadores de Divinópolis não deveria ser aberta com a leitura da bíblia, que escolas e hospitais públicos não deveriam ter nomes de santos e ter imagens ou cruzes.
O estado brasileiro se declara laico na constituição mas em todas as suas instituições vemos um profundo ranço cristão e porque não católico.
Para a maioria das pessoas isso é visto com naturalidade, como característica cultural e respeito à cernça porque o Brasil é um pais historicamente cristão/católico.
No senso comum brasileiro os valores cristão não são valores religiosos, mas sociais. Até brutais painéis de dois metros de cristo são naturais ou até bonitos.
Mas o respeito à crença é apenas admitir a manifestação de todas, e não o estado manifestar uma. Pensando logicamente, se o estado manifesta uma teria que manifestar todas, pra que às represente igualmente. Então poderia haver um hospital Aleister Crowley.
Quando, durante a Revolução Francesa, se decidiu que o estado deveria ser laico foi para evitar que houvesse influência da religião sobre a política. E hoje o que temos mesmo nas discussões sobre células tronco aborto e eutanásia? E sabe porque? Porque o estado perpetuou não o poder político da igreja, mas o poder cultural. Porque continuamos agindo como se o normal, recomendável, bom fosse aceitar a participação da igreja no estado.
Note que não estou refutando o importante papel histórico, social, cultural das igrejas. Hoje mesmo, quantos projetos filantrópicos não são mantidos por elas?
Mas no entanto, como todo grupo social eles deveriam expandir as suas idéias por esforço próprio sem ter nenhuma ajuda injusta da máquina estatal. Por que não recebem essa ajuda os satanistas ou os pesquisadores de células tronco? (não que eles estejam na mesma categoria de pessoas)
O que quero dizer é que o poder cultural das igrejas não deveria ser perpetuado pelo estado, mas pelas igrejas. As crianças deveriam cantar músicas religiosas nos catecismos, não nas creches. Que as cruzes, imagens e leitura de livros sagrados deveriam estar nas igrejas, templos, casas de culto e não nas escolas, tribunais e casas legislativas.
Que o estado deveria seguir o princípio laico que carrega na constituição, porque poder cultural em um estado democrático é quase a mesma coisa que poder político. E hoje, inegavelmente as igrejas cristãs recebem um financiamento público de campanhas inegável chamado por exemplo “Ensino Religioso”.

4 Respostas para “Estado laico?”

  1. Mariana Martins diz:

    Sim, o encontro com Deus é algo pessoal e concordo que escolas, creches e câmara de deputados não devem manifestar cultos, cantos ou pregações bíblicas.
    Contudo, discordo que decisões políticas (como no caso das células tronco) devam ser isentas dos valores religiosos. A política deve ser exercida em função de etabelecer o conforto do povo (ou pelo menos da maioria, que no nosso caso é cristã). Não se pode fazer isso ignorando suas crenças e convicções.
    Ótimo o texto! Posicionamento interessante.

  2. Roque Santeiro diz:

    Concordo plenamente.

  3. Bárbara diz:

    concordo em gênero, número e grau.

    o Estado deveria ser laico.

    as instituições do estado tbm deveriam ser laicas.

    mas acaba q nós somos massacrados pela cultura de massa q impõe o cristianismo.

    as questões relativas ao estado e, sobretudo, à sociedade, deveria ser mais laicas. Claro q um pouco de sagrado às vezes é bom, mas não em questões onde se trata da morte de milhares de mulheres que optam por decidir sobre sua própria sexualidade e vida, ou de pessoas doentes q escolher morrer com dignidade quando não agüentam mais, ou da possibilidade de proporcionar vida com qualidade às pessoas q sofrem…

    se as pessoas fossem mais laicas…

  4. Mariana Martins diz:

    Cochise César: “Não acho que qualquer decisão política deva ser tomada sem levar em conta TODOS os segmentos da sociedade, mas acontece que um desses segmentos recebe uma vantagem imoral… Esse é o ponto.
    Numa sociedade democrática poder cultural é poder pólitico e o estado brasileiro “doa” poder à religião cristã…”

    Mariana: Concordamos no ponto que poder cultural é poder político. Religião é cultura e, infelizmente ou felizmente, não pode ser dissociada de política. Porque religião representa povo e política representa povo.
    Há uma diferença entre o ideal e o prático. E sim, o ideal é a voz de todas as religiões numa decisão política. O prático é a voz da religião com representação majoritária. No caso, religião cristã.
    Injustiça ou não, leis para o manuseio de células tronco, por exemplo, não devem deixar essa maioria insatisfeita.


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