Jogos mortais

Hoje baixou Freud por aqui e apesar de eu ser junguiano de coração e mente acho que vou usar umas categorias dele aqui e esquecer as coisas infinitamente mais complexas, profundas e verdadeiras de Jung (Acho que é por isso que a psicanálise freudiana/lacaniana tem tantos adeptos. Ela é fácil e simples)

As pessoas que tentam te convencer a assistir Jogos Mortais por causa da lição de moral “Apenas diante da morte iminente damos valor à vida” são interessantes…
Pessoalmente acho que encarar a vida diante da morte dá uma reviravolta na escala de valores, mas só precisei ler Kundera e ouví-lo dizer que “Tudo será esquecido e nada será reparado” para a morte se tornar uma constante da minha vida. Não de jogos sádicos de um cara doente. Mas a questão não é o filme em si ou a lição de moral que ele passa.
Sabe aquelas pessoal do RH que fica colocando recadinhos com lição de moral pelos quadros de flanela da empresa? Aqueles que ficam mandando aquelas apresentações do Power Point com mensagens de luz e sabedoria? (Leia-se auto ajuda, por vezes de cunho religioso)
Pois é. São pessoas que não lidam bem com seu id. São pessoas que o reprimem e buscam afirmar o superego através desses recadinhos que são mais direcionados para si mesas que para os outros. São as pessoas que nunca vão admitir, mas sentem desejos proibidos tanto mais fortes quanto maior a repressão e que se tivessem fibra ao invés de morrer com esses desejos insatisfeitos em certo dia iriam metralhar os colegas de trabalho.
As que ficam te recomendando Jogos Mortais são aquelas que não lidam muito bem com o id também… mas acharam nesse filme uma desculpa esfarrapada para soltá-lo um pouquinho. Pessoas que sentem os mesmo desejos proibidos do pessoal do RH e quando surge uma oportunidade dá uma escapadinha para a seção da perversidade para se sentir bem, mas precisa de uma justificativa diante do superego.
Agora, eu aqui me pergunto se esse pessoal todo sabe que a repressão é o caminho de quem não se identifica com seu próprio id e fica agindo com se esses desejos fossem coisas colocadas em suas cabeças pelo demo ou coisa parecida. De quem não consegue se ver dentro deles.
Bem… Vou assistir filmes pavorosos quando tiver vontade (de vez em quando acontece) não tenho problemas nenhum em admitir que tenho uma metralhadora imaginária e que o número de vítimas deve estar por volta de 200 pessoas (embora algumas eu tenha matado várias vezes).
A questão não é não reprimir o id, mas parar de tratá-lo como influência da sociedade, tentação do cão ou qualquer outra coisa externa. Se você olhar a cara do demônio vai descobrir que é um espelho da casa do horrores. É a sua cara com alguns acessórios.
Se você porventura quer matar alguém porque ao invés de reprimir isso e colocar mensagens de luz e sabedorias na flanela ou assistir jogos mortais você não admite que está com raiva de um desgraçado-filho-da-puta-que-merece-morrer e está coberto de direito da cabeça ao pés em querer extrair a espinha do cara pela boca.
Bem… é claro que existe o risco de cair em tentação, mas o que acontece com as coisas que reprimimos além de crescerem e fermentarem? Além de tirar os ono, repercutir onde não devia e por aí vai?
É maios ou menos o que Jung chama de “andar com a sombra à sua frente”, mas esse conceito é mais complexo do que eu estou com saco de explicar e no final é quase isso.
É esse quase reclamar desse mundo por demais politicamente correto onde dizer que não gostou, reclamar, querer matar e sentir raiva são pecados tão graves quanto estar sozinho ou chorar de tristeza.
Essa quase ode ao nosso lado mais negro porque faço odes ao ser humano completo e não mutilado pelas normas e tabus que definem o aceitável, o recomendável, o obrigatório e o que é a mais pura heresia.

PS
Não atualizei esse final de semana… Não peço exatamente desculpas, porque não assumi um compromisso com os leitores de atualizar todo dia. Mas me sinto mal por ter dormido até as cinco da tarde no domingo.
Hoje a noite tem mais uma página de Alfa, Beta, Gama.
Até lá.

8 Respostas para “Jogos mortais”

  1. Bárbara diz:

    well… eu tendo mais pro Freud que pro Jung, e vc sabe pq ha mto tempo…

    Dia desses uma menina da minha sala contou uma “piada interessante” sobre isso:

    O Superego ta segurando o Id, custando, pq o Id ta louco pra soltar a franga. Aí o Ego resolve tomar partido e diz: Superego, vai buscar o frisbee. o Superego sai correndo prum lado, o Id sai correndo pro outro, e o cara depois diz que “eu estava fora de mim”.

    Do jeito que ela contou até que foi engraçado.

    Pelo que eu entendi, Jogos Mortais é uma desculpa esfarrapada pra quem ta louco pra mandar o Superego buscar o frisbee.

    Espero não estar entre as mais ou menos 200 pessoas que você “matou”….

  2. Cochise César diz:

    ora… você foi apenas três vezes…
    (brincadeira, na verdade apenas uma)

  3. Bárbara diz:

    nossa… pelo menos foi uma só!…

  4. diz:

    Bem, digo logo que eu não sou muito fã desse tipo de filme não, mas até assisto vez por outra. Acredito sim que a gente tem que dar vasão as nossas revoltas, claro que a gente não vai matar ninguém de verdade, mas de mentirinha pode, só pra gente, bem no estilo complexo de édipo. Como uma auto-afirmação.

    Mas antes de sair por aí, destruindo imagens de pessoas no nosso imaginário, acredito que não tem coisa melhor do que uma boa conversa pra colocar todos os pingos em todos os “is”, “jotas” e afins. Mas também isso é relativo, num é com todo mundo que dá pra ter uma conversa sensata e madura. Então, conversa e se resolve com quem dá, o resto, mata com metralhadora invisivel, ignora, finge de morto, enfim… Sempre tem um jeito de extravasar, nem que seja chegando no quarto e chamando um palavrão.

    Bjo

  5. Cochise César diz:

    Não estou falando exatamente de resolver problemas…
    Estou falando da relação com o id mesmo. não da maneira como resolvemos uma questão objetiva, mas de como lidamos com instintos violentos, sádicos, masoquistas, pervertidos, etc.
    Claro que somos civilizados resolvemos boa parte das cosias na conversa. claro que somos animais primitivos e sentimos toda sorte de desejos proibidos nas áreas social e pessoal.
    Té mais Má.

  6. Bárbara diz:

    bem… essa questão é mto séria.. Pulsões (uma tradução melhor para o termo usado por Freud e mtas vezes traduzido como instinto) são coisas q não se conciliam mto bem com civilização. A diferença entre pulsão e instinto – e conseqüentemente entre homem e outros animais – é q a pulsão não é dirigida nem específica. Ou seja, as necessidades humanas sõa mais complexas q as necessidades dos outros animais. A pulsão de cunho sexual ou mantenedora da existência (Eros) nào diz respeito apenas à genitalidade mas a todo e qualquer prazer e sentimento de autopreservação. A pulsão de cunho destrutivo (Thanatos) diz respeito à violência e ao sentimento de autodestruição. Tudo isso é inconsciente, ou seja, as pessoas não sabem conscientemente oq sentem. Portanto, uma conversa civilizada não resolve um problema de pulsão reprimida. (bem… a psicanálise é uma espécie de conversa civilizada q resolve, mas as diferenças são gritantes e isso não vem ao caso…)

    Fui clara?

  7. Cochise César diz:

    foi.
    Clara e precisa.
    Acadêmica também.
    Talvez esse seja o ponto de às vezes sermos considerados chatos. A linguagem acadêmica é considerada chata, apesar dela ser tão clara e precisa.

  8. Bárbara diz:

    é… às vezes é ruim ler algo na linguagem acadêmica. Mas em certas ocasiões ela é perfeita…


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